Três jovens estudantes (uma menina e dois meninos) debruçados sobre uma cebola cortada ao meio, observando suas camadas — ilustração do Método Cebola

O Método Cebola (Ou O Manual que Eu Queria Ter Tido)

Cerize Abe

7 min de leitura

Segundo lugar geral no vestibular. Primeiro lugar em dois mestrados na USP. Aprovada pro doutorado no Canadá. Já trabalhei como programadora numa das maiores empresas de tecnologia do mundo.

Vim do interior do Paraná. Estudei a vida toda em escola pública. Comia merenda da escola. 

Eu não conto isso pra me gabar. Conto porque sei exatamente o que você está pensando: “ela deve ser muito inteligente.” E é aí que você está errando o diagnóstico — e provavelmente errando o seu também.

Inteligência ajudou — não vou fingir que não. Mas inteligência sem método é potencial que fica na gaveta. E o método, diferente do QI, dá pra ensinar. Foi ele que transformou o que eu tinha em resultado.

Durante anos eu estudei sem saber que estava usando estratégias que a maioria das pessoas nunca aprende. Não porque eram segredo. Porque ninguém ensina (na maioria das vezes nem é por maldade, simplesmente a pessoa usa as estratégias de forma intuitiva e nunca percebe o que faz de diferente). A escola te diz o que estudar. Ninguém te diz como o seu cérebro aprende de verdade.

Esse texto é o manual que eu queria ter tido.

A mentira que te paralisa

Quando você vai estudar, provavelmente está tentando entender A Verdade sobre aquilo. O que o átomo realmente é. O que a Revolução Francesa realmente foi.

Essa Verdade com V maiúsculo não existe da forma que você imagina.

O que existe são modelos. Representações que o conhecimento humano construiu pra explicar o que a gente observa. Os gregos tinham um modelo de átomo indivisível. Depois veio o átomo de Bohr. Hoje existe o modelo quântico. Nenhum desses é o átomo de verdade — cada um é a melhor representação disponível no seu tempo.

Entender isso te faz enxergar tudo diferente, meio que você toma a pílula vermelha da Matrix. Porque se o que você está aprendendo é sempre uma representação, você nunca vai “entender completamente” — e isso não é falha sua. É a natureza do conhecimento. O problema não é você. É a expectativa que você tem de chegar a uma verdade absoluta que não pode, por definição, ser alcançada.

O método

1. Descasque uma camada de cada vez

Pensa no conhecimento como uma cebola. Ela tem camadas. Você não precisa chegar ao centro logo de cara — e na maioria das vezes não faz sentido tentar. O que você precisa é entender claramente a camada onde você está, e ir mais fundo só quando aquela camada não for mais suficiente pra responder suas perguntas.

Eu trabalho há anos com um framework chamado Next.js. Sempre soube como o sistema de caching dele funcionava no contexto dos projetos que eu trabalhava — e isso era suficiente, todo mundo estava feliz. Aí resolvi fazer um app novo e coloquei num ambiente que não lida bem com caching agressivo. Os bugs começaram a aparecer. Coisas sumiam de menus, mudanças nas páginas demoravam dias pra aparecer. Depois de muita investigação, resolvi o problema — mas pra isso precisei entender o caching numa camada muito mais profunda do que eu precisava antes.

Cheguei no miolo? Não. Poderia ir mais fundo ainda. Mas por agora basta. Resolvi o problema.

Você define o tamanho da sua cebola e o quanto precisa descascar. Essa decisão é sua, baseada no que você precisa agora — não no que existe pra saber.

O erro do estudante travado é achar que não sabe nada porque não chegou ao centro. Você sabe. Você está numa camada. A única coisa que você precisa fazer é continuar descascando.

2. Cebola solta no espaço vai pro lixo

Se você aprende algo completamente isolado — sem conectar com nada que você já sabe — seu cérebro vai tratar aquilo como lixo e descartar. É fisiologia, não fraqueza. Memória funciona por associação. O que não tem conexão, some.

Toda cebola nova precisa de um link com alguma cebola que você já tem.

O link não precisa ser sofisticado. Se você já entende a Revolução Francesa e quer aprender a Primeira Guerra Mundial, o link inicial pode ser simplesmente: “aconteceu depois.” Com o tempo você vai fazer conexões mais ricas. Mas começa pelo simples. O que não pode é deixar a cebola flutuar.

Tem um detalhe importante: às vezes pra conectar duas cebolas você vai perceber que existe uma terceira no meio que você ainda não entende. Tudo bem. Aceita que ela existe, coloca ela como caixa preta no seu mapa, e segue em frente. Ela vai ficar ali esperando até você precisar dela.

Tentar descascar todas as cebolas ao mesmo tempo é a receita pra travar de vez.

3. Você tem R$ 30 por dia — não mais

Imagina que você vai à feira todo dia comprar cebola. Só que existe uma limitação rígida: você só tem R$ 30 por dia. Sem exceção, sem cheque especial.

Esses R$ 30 são sua capacidade cognitiva e emocional do dia. É o que seu cérebro consegue processar antes de travar.

Se você gastou R$ 29 na noite anterior ruminando alguma coisa — briga, ansiedade, rolagem infinita até a 1h da manhã — você acordou com R$ 1 no bolso. Você não vai na aula de cálculo “bem faceira” com R$ 1. Essa cebola não entra no orçamento.

Quem convive com ansiedade sabe o quanto ela consome. Você fica parado, sem fazer nada à primeira vista, e a cabeça rodando em alta resolução. Pra mim isso significa que sempre tenho que contar com a possibilidade da ansiedade comer parte do meu orçamento. Não é fraqueza — é gestão de recurso real.

O erro não é ter dias com R$ 1. O erro é não saber o que fazer com R$ 1.

4. Na hora da xepa, compra a cebola pequenininha

O que você faz quando chega o dia de estudar e está quebrada de energia?

Senta e chora? Não. Porque chorar e se culpar também custa. Se você gastar seu R$ 1 restante se punindo por não estar estudando direito, você entra no cheque especial — e vai dever do dia seguinte também.

Quando você está pobre de energia, você vai pra feira na hora da xepa.

Você não tenta comprar a cebola grande e cara. Você pega aquela cebola pequenininha, meio feinha. Na prática: revisa um resumo que você já fez. Relê uma página que você já entende. Resolve uma questão — só uma. Organiza suas anotações. Atividades mais mecânicas, que custam menos.

Eu tenho uma listinha de coisas que consigo fazer mais facilmente nos dias difíceis. Nos dias em que meu orçamento é zero, eu cuido do meu corpo e olho pra mim com compaixão — porque amanhã os R$ 30 voltam.

Você vai pra casa com sua cebola feinha, feliz. Porque você manteve o hábito sem quebrar o sistema.

O que muda quando você entende isso

Aprendizagem não é talento. É arquitetura.

Você descasca camadas no ritmo que você precisa. Conecta o que aprende com o que já sabe. Respeita seu orçamento em vez de fingir que ele não existe. E nos dias ruins, compra a cebola feinha em vez de ir embora de mãos vazias.

Isso não é motivação. É como o aprendizado funciona — independente de QI, de escola, de quanto tempo você tem.

Eu continuo descascando cebolas até hoje. Você também vai.

Bora?